Passeios com a família

Como não é só de tecnologia que eu gosto de falar, mas também de fazer paralelos com a mesma baseado nas minhas experiências de vida, e como o assunto tá minha cabeça devido ao recente passeio com a minha família pra ver Enrolados, eu resolvi encher lingüiça falar sobre o tópico. E quem me vê falando “minhas experiências de vida” deve achar que eu sou velho. Mas foda-se, não preciso ter 72 anos pra refletir sobre a vida.

 

Como vocês devem se lembrar (se não se lembram, leiam o tópico acima. Ou finjam que se lembram, só pra efeito de conversa), algum tempo atrás eu tive o prazer de passar um domingo com a família, no shópis. Claro, alguns devem pensar “ah, ir no shopping é corriqueiro, não é passeio”. Permitam-me discordar. Fui criado (e atualmente, estou morando novamente) em uma cidade pequena, portanto durante toda a minha infância idas ao Shopping Center eram eventos de significante garbo, sempre acompanhados de grande entusiasmo da minha parte, afinal de contas, uma ida ao Shopping Center era minha oportunidade de ver brinquedos que eu só via na televisão, de ver um filme em uma tela gigante, e de ver mais gente do que eu veria em um mês na minha cidade. E, se eu tivesse sorte, a oportunidade de ir ao fliperama jogar House of the Dead e talvez até ganhar um dos tais brinquedos incríveis. Para uma criança (ou, como alguns diriam, “um pequeno psicopata em formação”) era uma manifestação do Paraíso na Terra, uma tarde utópica na qual nada mais importava, além do deslumbre incessante causado pela torrente excessiva e constante de novas informações a um cérebro sedento.

Mas não é de graça que eu teço esse breve conto de minhas experiências (e é intencionalmente que meu texto aparenta ser mais poético e cheio de floreios do que de costume): é para colocá-los à par do sentimento que me leva a escrever este texto, e também para ampliar a sinergia necessária à compreensão que almejo. E também para me exibir um pouco de minhas capacidades literárias mais formais.

Dito isto, foi exatamente deste sentimento bobo que fui tomado, me tornando durante uma tarde num verdadeiro patau. Embora mais acostumado ao ambiente comercial de um shopping devido à minha curta temporada morando em “cidade grande” (e também por ter ido diversas vezes aos mesmos, pra ir ao cinema, mesmo que sozinho), como estava acompanhado de meus familiares eu vi em primeira mão o mesmo sentimento: minha sobrinha mais velha olhando vitrines, minha afilhada encantada com tudo que aparecia pela frente (crianças são demais mesmo, excesso de informação deixa elas mais malucas do que de costume), meu irmão e eu fazendo piadas idiotas como era de se esperar, e minha mãe resmungando e querendo parar pra ver vitrines. Foi assaz divertido quando eu disse que ela poderia entrar nas lojas pra ver os produtos, mas me surpreendi deveras com a resposta dela: “não, aí demora demais e não dá pra ver todas as vitrines”. Enfim, estávamos todos por lá, felizes, loucos pra comer McDonald’s (especificamente no caso das sobrinhas, já que eu preferi comida chinesa), tomando milk shake do Bob’s, dando risada e conversando bobagem.

Deixando um pouco de lado a levemente forçada erudição, passar um domingo em família é uma experiência agradabilíssima. O ocasional passeio em família, uma tradição que há muito eu não cumpria, subitamente ganhou uma importância que eu não tinha percebido antes. Talvez eu esteja ficando velho, mas aos 25 anos, acho extremamente improvável. Mesmo que eu já tenha fios brancos na barba. Mas ponderações sobre minha idade, ou falta dela, não irão alterar a minha conclusão: de que família, por mais que de vez em quando incomode, é algo importante. Eu não pretendo mudar a maneira de ninguém ver o mundo, ou mesmo de ver a própria família. Mas só quero abrir essa reflexão sobre o que significa a palavra. Até porquê, como diz uma frase que li num livro de Star Wars (um dos livros da série Republic Commando, de Karen Traviss), “Aliit ori’shya tal’din” – Família é mais do que sangue. Não são relações de parentesco genético que definem quem somos, nem de quem gostamos, e nem quem queremos ao nosso lado. Ao longo da vida, escolhemos a nossa família não somente, por afinidade, mas também por relações de confiança. Assim como os Mandalorianos do universo Star Wars, não acredito que a família depende unicamente de onde nascemos. Pra ser mais exato, eu acho que passamos por diversas fases na vida, que nos levam a escolher o que aceitamos como família. Como diz a definição do dicionário: “conjunto de pessoas relacionadas (por criação ou geneticamente) a alguém”.

Geralmente, pessoas atravessam diversas fases na vida, nas quais as prioridades mudam. Enquanto criança, o mais importante de tudo é brincar e ir à escola. Até a pré-adolescência, o núcleo familiar caseiro é o que mais importa: aquelas pessoas são tudo no mundo para nós. Já na adolescência, o núcleo familiar se desloca : passa do grupo “tradicional” de familiares aos amigos. O mundo de um adolescente gira completa e unicamente em torno de seus amigos, sendo eles de maior importância para o indivíduo do que a própria família. Creio que exista algo na psicologia que explique isso de maneira mais formal, mas como é corriqueiro dizer, é uma fase na qual o indivíduo se rebela, questiona os valores com os quais foi ensinado. É nesta fase que se forma o alicerce do caráter de uma pessoa, já que através dessa contestação de valores, enfrentamos experiências diversificadas, vemos muito pela primeira vez, e tomamos nossas próprias decisões. E é aí que entra a mudança do jovem adulto, ou a “crise dos 20 anos”: percebemos que não somos o centro do universo. Nos sentimos insignificantes, intimidades, até mesmo aterrorizados pela simples escala do mundo: percebemos que não vamos mudar o mundo, que nossa rebeldia e inconformismo, na verdade, são conformidades em si. Que a nossa singularidade não passa de uma impressão falha, de alguém que passou os primeiros 18 anos de sua vida olhando para o próprio umbigo, e que na verdade “todo mundo é único, de maneira igual”. Tomamos ciência do estranho conceito de “singularidade uniforme”, onde finalmente descobrimos que todas as pessoas são iguais. Justamente porque nenhuma é igual.

E não acho que estou divagando demais, fugindo do assunto: é justamente ao passar pela crise dos 20 anos que formamos a pessoa que seremos. É quando, verdadeiramente, nos tornamos adultos. E aí vemos o valor que a verdadeira família tem: aqueles que nos são queridos, independente de sangue, cor, raça, classe social ou relacionamento genético e/ou familiar (no sentido “tradicional” da palavra), e percebemos que nossa família são aqueles com quem queremos passar tempo. E, mesmo na mais instável das casas, haverá parentes de quem gostamos e cuja companhia apreciamos. São essas pessoas que irão, junto aos amigos mais próximos, formar a família de um adulto. E são essas pessoas com quem não devemos perder o contato. E com quem devemos sair aos domingos pra ir ao cinema, ver um desenho junto com as crianças, nem que seja uma vez ou outra apenas.

Um pensamento sobre “Passeios com a família

  1. José Rafael de Souza!
    (Sim, merece ser respeitosamente chamado pelo nome, segundo nome e sobrenome por causa deste post. Mas SÓ hoje, porque ainda prefiro te chamar de GORDO ESCROTO, é mais legau.)

    Enfim, fiquei impressionado com o post, pelo conteúdo, pelo assunto levantado. Quase nem lembrava mais do conceito de família, devido “n” motivos, os quais não interessam a ninguém e nem vêm ao caso agora. Posso te garantir que, depois de deixar este comentário aqui, vou mandar um SMS pra algumas pessoas (sejam da família ou não) dando um simples “oi”, dizendo o quanto gosto ou convidando pra dar uma volta no findi.

    Quando entro numa discussão, não gosto de ficar arranjando desculpas e sim argumentos que sustentem minha oponião sobre um assunto. NESTE caso, especificamente, não tenho nem argumentos e nem desculpas. Me sinto distante daquelas pessoas as quais eu deveria estar mais próximo. O bom é que ainda dá tempo de corrigir isso.

    GORDO ESCROTO, teus textos têm sido ótimos. Eram legais, passaram pra bons e com experiência (talvez quando tu chegar aos 70 anos), estarão no alto degrau da maturidade.

    Admito que teu blog está entre os que eu mais gosto de ler, seja pela diversidade de assuntos, seja pelo sarcasmo ou até mesmo pelas fotos de unicórnios.

    Queima.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s