O dia em que me tornei a Arma.

Onde deveria haver um pátio, agora só há um rombo enorme. Mais alguns passos e vejo que o “buraco”, na verdade, é o pátio que deveria estar no mesmo nível das colunas à esquerda e direita. Ouço a já familiar voz artificial, sintética e impessoal, me avisando da situação: “Ameaça detectada. Opções táticas disponíveis”. Com um breve pensamento e um leve movimento em um dos dedos, desapareço da visão. Recebo a confirmação na mesma voz robótica: “Camuflagem ativada”. Olho para minhas mãos, agora praticamente transparentes, ainda não acostumado completamente a “ficar invisível”. Parece verdade o que dizem sobre “toda tecnologia avançada o suficiente parece magia”. Com um toque, ativo o modo tático do visor, acessando os controles que ficam ocultos ao lado da lente. Começo a observar a área, e logo identifico três alienígenas. “Alienígenas”. Estranho chamar assim seres que, de acordo com o Dr. Hargreave, vêem do fundo do oceano. Mas certamente não parecem humanos, se parecem mais com polvos. Justifica o apelido dado a eles pelos marines. Também identifico logo duas opções táticas ressaltadas pelo sistema de reconhecimento do nanotraje: uma pilha de suprimentos, com munições e granadas, e um local onde é possível flanquear os inimigos, em um trem agora suspenso a cerca de 30 metros de altura. A princípio, penso em subir até o trem, o que deve ser fácil com o nanotraje, e usar o rifle DSG-1 que peguei há pouco junto de um marine ferido, mas logo identifico outros 3 inimigos. Resolvo usar a cabeça, e ir com mais calma.

Escuto, novamente, a voz do nanotraje, que se tornou meu companheiro constante nas últimas horas atravessando uma Nova Iorque destruída. Desta vez, me alertando: “Energia em nível crítico”. Olho no medidor, abaixo de 25%. Nos 10, talvez 15 segundos que restam, eu poderia descer rapidamente e me ocultar atrás dos suportes do trem para recarregar, mas prefiro ir com mais calma. Me abaixo atrás de uma das colunas ao meu lado, e desativo a camuflagem. A energia é recarregada rapidamente, graças às melhorias que o traje aplicou em si mesmo, coletando “catalisadores” dos alienígenas que eliminei. A tecnologia é tão avançada que parece viva. Eu nem perco meu tempo tentando entender: apenas me acostumo ao que vou descubrindo aos poucos. Energia recarregada, saio de trás da coluna, novamente camuflado, e desço cautelosamente por um pedaço quebrado de rua, agora funcionando como “rampa”. Um dos polvos está caminhando na outra direção. Eu atravesso o caminho no meio dos resquícios de grama, e paro atrás de um paredão que afundou: o pátio inteiro está cheio destes desníveis agora. No fim das contas, tive sorte, pois estão me ajudando bastante. Fico agachado, esperando o polvo voltar. Espero ele passar, espio para trás para garantir que não há nenhum outro seguindo, e… me viro para dar de cara com o desgraçado. Aparentemente, ele suspeitou, deve ter visto a interferência causada pelo campo que me deixa transparente. Ele percebe que há algo ali, mas antes que ele possa reagir, puxo minha faca e o silencio, em um movimento rápido. O nanotraje coopera, aumentando a força em meus braços, evitando que ele possa alertar alguém antes de cair ao chão, inerte.

Essa foi por pouco, é melhor eu tomar mais cuidado. Volto até o trem, subo e, de lá, observo o pátio. Identifico os 5 restantes, não há mais nenhum. Observo por alguns instantes, e identifico os padrões de patrulha: 3 estão parados, dois estão se movimentando, mas estão em locais específicos. Desço pela encosta, me esgueirando camuflado, até um deles que está separado. Um dos patrulheiros se aproxima, espero ele passar, e mais um inimigo vai ao chão, silenciosamente. O patrulheiro parece suspeitar, e começa a retornar. Ao ver que seu companheiro, aparentemente, não está mais ali, vem correndo para verificar a situação. Aguardo abaixado atrás de uma pedra, apenas esperando que ele se aproxime. Agora, só mais três.

Ainda camuflado, vou seguindo adiante. Se derrubar o primeiro, o de trás vai me ver, então continuo seguindo pela encosta. O outro patrulheiro passa ao meu lado, quase pisando em mim. Por sorte o vi a tempo, e fiquei completamente imóvel, reduzindo a chance de ser visto por causa da interferência. Mais adiante, quando me viro para eliminar o primeiro deles, mais atrás, vejo dois casulos despencando de uma nave. Reforços, aparentemente. Os dois ficam recuados, como se soubessem que estou entre os dois grupos. Recuo um pouco, e flanqueio ambos. Elimino os dois com facilidade: ao eliminar o primeiro, o segundo estava distraído com alguma coisa, não tendo tempo nem de saciar sua curiosidade, nem de perceber a minha aproximação pela água, atrás dele. Agora só restam os outros três: levanto correndo, ainda camuflado, e elimino o primeiro com a faca. Antes que este caísse no chão, uso a pistola para disparar dois tiros certeiros: o ponto fraco dos desgraçados é nas costas, onde não há placa de armadura. Oito alienígenas caídos, nenhum som: é, a cautela foi melhor do que o tiroteio na frente da biblioteca, um pouco antes. Um pouco mais demorado, talvez, mas bem menos arriscado.

Me voltando para a prefeitura, identifico uma lateral por onde posso subir. Aparentemente, eram todas as patrulhas nesta área. Entro em um container com munições e armas, troco o rifle sniper por um SCAR com silenciador e mira holográfica, mais prático para locais mais fechados. A entrada para o metrô está bem próxima. Quando me viro para a porta do container, ouço o som de quatro outros casulos caindo adiante. É, eu estava certo: eliminei todas as patrulhas na área. Deveria ter passado despercebido, e não teria problemas agora… mas se dei conta de oito, outros quatro não vão fazer diferença. Saio camuflado, me levanto por trás de uma grade para observar: vejo apenas dois. O outro deve estar atrás de alguma coisa, ou tendo problemas pra sair do casulo. Elimino o primeiro com facilidade: ele estava logo atrás da mureta de contenção com a grade… e ouço um grito inumano atrás de mim. Desgraçados. Com um breve pensamento, o nanotraje responde quase que instantaneamente: “Blindagem máxima”. Os primeiros tiros do polvo me acertam no peito, mas se estilhaçam contra um tanque humano. Tenho que agir rápido, a blindagem consome muito mais energia ao resistir impactos diretos. Uma rajada do SCAR é o suficiente para arrancar o capacete e, em um tiro de sorte, levar o primeiro ao chão. Os outros dois aparecem no fundo, e é aí que minha espinha gela: um deles é grande. Muito grande. Disparo mais uma rajada, sem surtir efeito. Além de ter 3 metros de altura, a blindagem desse desgraçado é igual à minha. Só que acho que não posso esperar “acabar a pilha” das placas de metal que cobrem a aberração. Em um décimo de segundo, mergulho para trás de um carro destruído. Ao menos quebrei a linha de visão.

Aquela coisa se aproxima, atirando. O carro não é atravessado, então acho que a munição é a mesma dos “pequenos”… mas ele atira três vezes mais rápido. Em meio ao surto de adrenalina, me lembro de um lança-foguete dentro do container. Ativo a camuflagem, e espero ele vir por um lado do carro. Fujo rapidamente pelo outro lado, ganhando alguns segundos… mas ele me vê. A camuflagem não é tão eficiente quando os inimigos estão cientes de que tem alguma coisa por ali. Independente disso, o curto intervalo até que ele me identifique é o suficiente para me permitir chegar até a arma: ao menos, o grandão é lerdo. Reforço a armadura novamente, e espero ele sair de trás do container. Um tiro certeiro no peito, e nem um arranhão. Mas ao menos, ele parece ter perdido o equilíbrio. Sem nem pensar muito, pulo por cima dele em um reflexo, trocando com o dedão o modo do SCAR de “tiro intermitente” para “automático”. Ao cair atrás, me aproveito de minha agilidade superior, e da minha sorte: a mesma falha de armadura, por onde saem os tentáculos. Esvazio o pente na nuca do desgraçado, e ele cai. Mais sorte do que juízo.

Irritado, mal espero a energia recarregar para disparar feito uma bala. Desativo a blindagem para me mover mais rápido, e em um piscar de olhos (literalmente) chego ao outro lado. O polvo me vê e abre fogo. Os tiros raspam em minha perna, com uma fisgada violenta, mas a adrenalina me faz ignorar a dor. Agarro-o pelo pescoço e o arremesso de volta para dentro do casulo. A força do impacto esmaga o capacete, dando cabo do último impedimento. Ofegante, a dor na perna me “acorda” do frenesi. Verifico o ferimento, apenas para constatar que o nanotraje já começou a tratá-lo, e a reparar sua própria estrutura. Aguardo alguns instantes, esperando a dor aliviar, e então me levanto, ativando novamente o modo tático do visor. Olho em volta, em busca do marcador de meu objetivo, bem próximo, dentro de um cano de esgoto quebrado. É uma entrada para os túneis do metrô. Deixo os corpos inertes dos alienígenas para trás, e caminho em direção ao objetivo. Minha perna parou de latejar, mas está fria, como se o ferimento tivesse sido fechado com metal. Depois eu paro para pensar nisso, agora eu tenho que localizar a equipe do Dr. Hargreave.

 

Pra quem não conhece, Crysis 2 é um jogo de primeira pessoa onde você “é a arma”. Munido de um nanotraje de tecnologia altamente avançada, você deve enfrentar uma invasão alienígena, e salvar o que resta de Nova Iorque… e provavelmente o mundo. Fica também uma “dedicatória” deste texto ao Affonso Solano, do MRG, que me inspirou a escrever um conto oriundo de uma das minha experiências dentro do jogo, através de dois textos incríveis dele no TechTudo. Recomendo a leitura, bem acima do nível da minha ainda inexperiente empreitada.

 

Crédito aos artistas do Deviantart:

COL0NEL-SANDERS

Ragaru

2 pensamentos sobre “O dia em que me tornei a Arma.

  1. Porra! Do caralho esse texto, Tota! Quando rola a continuação? Se isso fosse um capítulo de um livro de ficção, eu comprava o livro.

    A narrativa ficou tão envolvente que eu me senti parte da situação. Fiquei com vontade de conhecer e jogar.

    • Pô, se ficou tão bom assim, todas minhas “resenhas” de jogo vão ser assim a partir de agora! Vou ver se continuo depois de terminar o game, e coloco uns avisos de “spoiler” antes pra não estragar pro pessoal que for ler.

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